Vermelhidão, descamação e coceira em apenas um dos mamilos costumam ser tratadas, à primeira vista, como um quadro banal de dermatite, muitas vezes resolvido com uma pomada de corticoide indicada sem muita investigação. O médico radiologista, Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues chama atenção para uma condição rara, mas clinicamente importante, escondida atrás dessa aparência inofensiva: a doença de Paget da mama, forma pouco comum de câncer que se manifesta justamente na pele do mamilo e da aréola, respondendo por cerca de 1% a 4% de todos os diagnósticos de câncer de mama.
O que torna essa apresentação particularmente traiçoeira é justamente sua semelhança com problemas dermatológicos comuns e completamente benignos, levando muitas pacientes, e até profissionais de saúde, a tratarem o quadro como simples alergia por semanas ou meses antes de considerar a possibilidade de investigação oncológica. Entender os sinais que diferenciam essa condição de um eczema comum, e por que ela quase sempre indica um câncer subjacente no tecido mamário, ajuda a reduzir um atraso diagnóstico que, em muitos casos, poderia ser evitado.
Por que a doença de Paget é tão facilmente confundida com uma simples irritação de pele?
Nos estágios iniciais, a lesão pode aparecer e desaparecer de forma intermitente, com vermelhidão e descamação que lembram, de forma bastante convincente, quadros como dermatite de contato ou eczema atópico, condições muito mais frequentes e benignas. Essa semelhança inicial favorece o uso de cremes tópicos à base de corticoide, que costumam aliviar temporariamente os sintomas sem resolver a causa real, criando uma falsa sensação de melhora que atrasa ainda mais a investigação correta.
Segundo o Dr. Vinicius Rodrigues, existe um detalhe clínico que deveria acender o alerta imediatamente: a doença de Paget praticamente sempre afeta apenas um dos mamilos, enquanto o eczema comum tende a aparecer nas duas mamas ao mesmo tempo. Para ele, essa assimetria é um dos sinais mais simples e mais negligenciados na prática clínica, já que uma lesão persistente e unilateral no mamilo deveria, por si só, justificar investigação mais aprofundada, independentemente de quão banal o quadro pareça à primeira vista.
Quais outros sinais ajudam a diferenciar a doença de Paget de um problema benigno de pele?
Além da lateralidade, a ausência de resposta ao tratamento tópico adequado depois de quatro semanas de uso correto é considerada um sinal de alerta relevante, já que o eczema comum costuma melhorar visivelmente com esse tipo de medicação, enquanto a doença de Paget permanece praticamente inalterada ou até piora com o tempo. Outros sinais que reforçam a suspeita incluem descamação persistente com aspecto de crosta, secreção pelo mamilo, achatamento ou inversão da papila e a presença de um nódulo palpável na mama subjacente, encontrado em até metade dos casos.

Na avaliação do Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, qualquer combinação desses sinais, especialmente quando associada à falta de resposta ao tratamento dermatológico convencional, deveria levar rapidamente a uma avaliação com mastologista, e não a repetidas tentativas de tratamento tópico sem investigação de imagem complementar.
Por que é tão importante saber que a mamografia pode aparecer normal nesses casos?
Um dado que costuma surpreender bastante é que boa parte das pacientes com doença de Paget confirmada apresenta mamografia dentro dos parâmetros normais, já que o câncer subjacente, geralmente um carcinoma ductal in situ ou invasivo, pode estar localizado de forma discreta demais para ser capturado pela mamografia isoladamente. É justamente nesse cenário que a ultrassonografia complementar ganha peso relevante, sendo capaz de revelar o tumor ou alterações mais sutis em até 67% dos casos que passaram despercebidos na mamografia.
Para o Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, essa informação reforça um princípio já discutido em outras análises sobre interpretação de exames: um resultado normal em um único método de imagem não deveria encerrar a investigação diante de um quadro clínico persistente e sugestivo, especialmente em situações como essa, em que a literatura médica já demonstrou claramente essa limitação específica da mamografia isolada.
Como é feito o diagnóstico definitivo quando existe suspeita da doença de Paget?
O diagnóstico depende de uma biópsia da própria pele do mamilo, permitindo identificar ao microscópio as células características dessa condição, geralmente acompanhada de exames de imunohistoquímica que ajudam a confirmar sua origem e orientar o tratamento mais adequado para o caso específico. Essa investigação costuma ser conduzida em conjunto entre dermatologista, mastologista e radiologista, já que cada especialidade contribui com uma peça diferente do quebra-cabeça diagnóstico.
O Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues conclui que essa condição ilustra bem por que a queixa da paciente deveria sempre guiar a investigação, mesmo quando um exame isolado retorna resultado tranquilizador. Para ele, sintomas persistentes e assimétricos no mamilo, independentemente da idade da paciente, merecem investigação cuidadosa antes de qualquer conclusão apressada de que se trata apenas de uma irritação passageira de pele.
Reconhecer a doença de Paget da mama exige, acima de tudo, desconfiar de qualquer lesão de pele no mamilo que não siga o padrão esperado de um problema dermatológico comum: que afete apenas um dos lados, que resista ao tratamento tópico habitual, ou que venha acompanhada de secreção ou nódulo palpável. Esse tipo de atenção pode representar a diferença entre um diagnóstico feito ainda em fase inicial, com excelente prognóstico, e um atraso que compromete desnecessariamente as chances de cura.
