Novo levantamento da CNT aponta gargalos em rodovias e transporte coletivo e propõe milhares de projetos para mudar a infraestrutura brasileira.
As grandes cidades brasileiras enfrentam um problema que vai muito além dos congestionamentos diários: a falta de uma infraestrutura de transporte capaz de acompanhar o crescimento urbano e integrar diferentes formas de deslocamento. Um novo diagnóstico da Confederação Nacional do Transporte (CNT), divulgado nesta terça-feira (8), estima em R$ 2,032 trilhões o investimento necessário para executar 2.837 projetos de infraestrutura de transporte no país. O plano inclui recuperação e duplicação de rodovias, expansão ferroviária e melhorias no transporte coletivo urbano.
Para quem vive em regiões metropolitanas, a dúvida é direta: esse volume de investimentos pode realmente mudar o tempo gasto no trânsito e a qualidade do transporte público? O levantamento mostra que o desafio não está apenas em construir novas vias, mas em diversificar os meios de transporte e priorizar sistemas capazes de levar muitas pessoas com maior eficiência. A discussão ganha peso especialmente em cidades como São Paulo, onde a dependência do transporte rodoviário convive com congestionamentos recorrentes e limitações na oferta de trilhos e corredores exclusivos.
Por que a infraestrutura de transporte ainda é um problema nas grandes cidades
O diagnóstico da CNT evidencia que o problema da mobilidade brasileira possui uma dimensão nacional, mas seus efeitos chegam diretamente ao cotidiano urbano. Apenas cerca de 13% da malha rodoviária brasileira é pavimentada, enquanto 62,1% das rodovias avaliadas foram classificadas como regulares, ruins ou péssimas. Nas vias sob gestão pública, esse percentual chega a 72,8%, indicando que a qualidade da infraestrutura continua sendo um obstáculo para deslocamentos, distribuição de mercadorias e integração entre municípios.
Nas metrópoles, entretanto, melhorar apenas as rodovias não resolve o problema. O próprio plano aponta a necessidade de ampliar metrôs, trens, monotrilhos, VLTs e corredores prioritários para ônibus, com destaque para São Paulo. A lógica é importante porque o transporte coletivo consegue movimentar grandes volumes de passageiros utilizando menos espaço viário por pessoa do que o automóvel individual. O Ministério das Cidades também considera sistemas de transporte público de média e alta capacidade, corredores exclusivos e sistemas inteligentes entre os projetos prioritários de mobilidade urbana apoiados pelo Novo PAC.
O que os R$ 2 trilhões podem mudar na rotina do morador
O Plano CNT de Transporte e Logística 2026 reúne 2.837 projetos, com aproximadamente metade do investimento estimado destinada a ações relacionadas ao transporte sobre trilhos. A proposta inclui cerca de 25,5 mil quilômetros de novas ferrovias e cinco projetos de trens de alta velocidade, além de intervenções em rodovias e outros modais. Embora grande parte desses projetos tenha alcance nacional e logístico, a expansão dos trilhos também pode influenciar a dinâmica das regiões metropolitanas ao melhorar conexões entre cidades e reduzir a dependência exclusiva dos automóveis e ônibus em determinados corredores.
Para o passageiro, porém, o efeito não aparece automaticamente com o anúncio de investimentos. Obras de mobilidade precisam ser planejadas de forma integrada, conectando estações, terminais, ônibus alimentadores, ciclovias e áreas de circulação de pedestres. O Ministério das Cidades destaca justamente a integração entre transporte coletivo e mobilidade ativa como princípio do planejamento nacional, com foco em acessibilidade e ampliação do acesso às oportunidades urbanas.
Por que metrô, trem e ônibus precisam ser planejados juntos
Um dos maiores desafios das metrópoles brasileiras é evitar que cada modal funcione como uma estrutura isolada. Uma nova linha de metrô, por exemplo, pode ter impacto limitado se o passageiro não conseguir chegar à estação de forma rápida, segura e acessível. O mesmo vale para corredores de ônibus: sem integração tarifária, conexão com outros serviços e prioridade real no trânsito, parte do ganho potencial da infraestrutura pode ser perdida.
O próprio governo federal mantém instrumentos destinados a integrar diferentes soluções, incluindo BRTs, metrôs, trens urbanos, VLTs, corredores e faixas exclusivas, terminais, ciclovias e sistemas de transporte inteligente. A Pesquisa Nacional de Mobilidade Urbana também vem ampliando a coleta de informações sobre municípios e regiões metropolitanas para apoiar decisões de planejamento e gestão.
Para o morador, isso significa que o futuro da mobilidade não depende somente de abrir novas avenidas ou aumentar a capacidade das pistas. Uma cidade mais eficiente precisa oferecer alternativas para que o cidadão escolha o transporte de acordo com distância, custo, tempo e necessidade, reduzindo a dependência do carro quando houver opções coletivas competitivas. Essa mudança também pode gerar efeitos econômicos e ambientais, já que deslocamentos mais eficientes reduzem perdas de tempo, consumo de combustível e emissões.
O desafio agora está em transformar o diagnóstico em obras, financiamento, planejamento e acompanhamento de resultados. O valor de R$ 2,032 trilhões apresentado pela CNT representa uma dimensão de investimento necessária segundo o plano da entidade, e não recursos já garantidos ou disponíveis para execução imediata.
Para as grandes cidades, a discussão é especialmente relevante porque mobilidade influencia emprego, acesso à saúde, educação, comércio e qualidade de vida. O Ministério das Cidades define a política de mobilidade urbana como parte do desenvolvimento urbano sustentável e trabalha com a integração entre transporte, planejamento e acessibilidade.
A principal pergunta para os próximos anos, portanto, não é apenas quanto será investido, mas onde, como e com quais prioridades. Projetos que conectem transporte coletivo, habitação, emprego e serviços públicos tendem a produzir impactos maiores do que intervenções isoladas. Para quem mora nas metrópoles, acompanhar esses planos significa entender se os investimentos futuros poderão representar menos tempo perdido no trânsito e mais opções para circular pela cidade.
